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A Mulher Certa

claudiaoliveira23[gmail]com

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2º Lugar Passatempo

Querida Cláudia (minha menina com mau feitio),

 

Vou saltar uma série de formalidades que aprendemos na escola acerca de escrever uma carta: escrever a data, o sítio de onde se escreve, blá, blá, blá. Mas como te vou entregar a carta à mão, vou abreviar (e com isto perdi mais tempo do que se tivesse escrito o cabeçalho, mas enfim!). 

 

Como já reparaste, voltei ao meu estado normal! Recuperei do choque, essa é que é a verdade! Quando me disseste há p’rai… três horas que ias trabalhar para Londres durante dois anos achei que qualquer coisa ia desabar. O café onde tantas vezes vamos, aquele cantinho onde nos sentamos há anos, subitamente pareceu-me um sítio apertado e as vozes à nossa volta intensificaram-se de tal forma que deixei de te ouvir a ti, que estavas mesmo ali à minha frente com um olhar melancólico, esforçando-te por fazer um sorriso feliz, enquanto os teus lábios diziam: “São só dois anos!”. Ouvi-te também calcorrear com a voz coisas como “O tempo passa num instante; podes sempre ir visitar-me” e ainda “eu vou vir cá também, nas festas”. Desejei ter ouvido mal, juro!

 

Conhecemo-nos desde pequenas, partilhámos os primeiros anos de escola, os primeiros desgostos amorosos, as primeiras dúvidas existenciais. E nunca vou esquecer quando olhaste para mim e tiveste a certeza que eu tinha tido a minha primeira experiência sexual. Até hoje não sei como é que raio descobriste antes que eu te contasse! Chorámos juntas tantas vezes e o que rimos então nem sei dizer! Estiveste sempre ali ao lado da minha casa, ao toque de uma campainha podia ver-te, correr para te contar alguma coisa. Nunca pensei na hipótese de tudo mudar e mesmo quando dizias que querias ir trabalhar para fora do país, custava-me acreditar. Não quis acreditar! Puro egoísmo, eu sei, mas sempre achei que nunca nos íamos separar mais do que mudar de casa, ou quem sabe, no máximo de cidade!

 

Há montes de coisas que há pouco não te consegui dizer e o meu silêncio, assim como a pressa de voltar para casa, não significam que não tenha ficado feliz por ti. Mas é que nunca te levei a sério com esse teus sonhos de seres uma daquelas miúdas que se passeiam alegres pela grande cidade europeia de bicicleta, escapulindo a um dia de chuva com um gorro e um cachecol esvoaçante. Imaginava-te a aterrorizares o pessoal aqui eternamente com esses teus ataques de rabugice quando a noite já vai alta, com essa tua esquisitice com a comida, com essa tua mania de escolheres sempre os sítios para onde vamos sair e tantas outras coisas que fazem de ti uma pessoa insuportável a quem, estranhamente, ninguém resiste!     

 

Agora aqui estou, sem sono, mas já mais tranquila, a conseguir escrever aquilo que não te disse. Vou ter saudades! Vou ter saudades de me ligares à noite porque não tens sono e queres que veja um filme contigo, ou de bateres à porta da minha casa porque estás a meio de um encontro e ficaste sem sal para temperar a salada. Vou ter saudades do teu medo de baratas e osgas, da tua relutância em usares saltos altos, da tua mania de queimares tudo e mais alguma coisa por causa dos cigarros (inclusive a minha blusa preferida!). E já agora, só não vou ter saudades de tu a fumares! Isso é que vai ser um mar de rosas! E porque sei que detestas lamechices mais ainda do que detestas ler grandes testamentos, vou abreviar: não te esqueças de mim, porque eu vou pensar em ti todos os dias.   

 

Um beijo,

Hyndra  

    

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