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A Mulher Certa

claudiaoliveira23[gmail]com

A Mulher Certa

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o teu bilhete de amor

 

Abraçou-me assim que me reconheceu. “Tu és a Inês”. Era, sou. Não podemos fugir do que somos, só podemos recuar quanto ao que queremos. Por vezes, nem assim. Estava tudo bem enquanto casal. Já vivíamos juntos numa moradia com jardim e um pequeno banco de baloiço. Foi ideia minha, assim como a decoração. Tudo à minha maneira. Apesar de ele não gostar do verde seco nas paredes da sala. “Lembra-me musgo”.  Por vezes, ele bebia o seu vinho, eu lia as minhas revistas fúteis. Via-lhe o rosto e a distância de pensamentos. “No que estará a pensar?”. Nunca cheguei a perguntar. Tenho pena de pensar que o conhecia e nunca ter chegado a tocar realmente nele. Posso viver ao lado de alguém uma vida e não desvendar os seus traços. De que é feito. Nós éramos feitos de voz e canção. Inseparáveis. Nem quando ele viajava durante semanas e não devolvia as chamadas. Demasiado ocupado. Pensava em mim, claro que pensava. Não precisava que me dissesse. Quando regressava a casa abraçava-me como se não me visse há muito tempo. “Pensaste em mim?”, “Claro, anjo.”. Não precisava de me mentir. O meu sorriso nesse dia era maior que nos restantes dias. Passava muito tempo sozinha mas nunca sentia aquele vazio de que todos falam nem medo do fim. Um dia partiu e deixou um bilhete e não soube mais nada. Faz quatro anos que não faço ideia de onde está, mas continuo à espera. Sinto tristeza desde esse dia. A casa está muito mais vazia. Deixei de ir para o quintal. Ando a vaguear no Mundo de quatro assoalhadas desde que li o bilhete deixado em cima da cama. O bilhete está escrito com uma letra cuidada numa folha de jornal velho de classificados. Adorava comprar bugigangas em segunda mão. Reli o pequeno pedaço de papel tantas, tantas, tantas vezes. Mais do que devia. Guardo-o numa gaveta junto à televisão. Antes, guardava-o junto à sua fotografia dentro da carteira. Doía mais. Todos gostamos de guardar bilhetes de amor para alimentar a alma, com medo que as melhores recordações se apaguem. Só quem nos dá a alma, nos escreve bilhetes de amor.

 

(continua...)

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