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A Mulher Certa

claudiaoliveira23[gmail]com

A Mulher Certa

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Sustos | 4º dia

Hoje a noite correu melhor ao Zé. Eu e o Gustavo acordámos e fomos tomar o pequeno almoço ao café. Não gosto de ir comer ao café, mas para não acordar a Francisca, fomos. O Gustavo levou a bicicleta. Quando regressámos a casa o Gustavo apanhou velocidade numa ribanceira e vi a minha vida andar para trás. Meteu a malta toda a olhar. Eu fiquei sem reacção. Ainda me perguntaram: ele não cai? Eu respondi que não sabia, que ele era maluco. Mas maluca sou eu por não ter ido atrás. Felizmente não caiu, mas foi por um triz. Arrumámos tudo e fomos até a Vieira de Leiria para um passeio. Foi muito bom. Comprámos outra bola ao Gustavo. A Francisca nem se ouviu. Fomos a uma feira de velharias, a feira mais pequena do mundo. Tipo o concerto mais pequeno do mundo. O Zé foi levantar cinco euros de uma raspadinha. Jogou outra vez, perdeu tudo. Voltámos para casa para almoçar. Eu conduzi o carro pela primeira vez. Não me ajeitei com o travão. Foi uma viagem meio engasgada. Para a próxima será melhor. Li o diário de férias ao Zé. O Gustavo tapou os ouvidos. Depois de almoço fomos tomar café. Um miúdo de seis anos obeso fez-me um questionário sobre o meu nome e nome dos meus filhos. Queria saber tudo e um prego. Enquanto fazia as perguntas salpicava-me com o ice tea. Eu tive paciência. E até fui simpática. Fomos embora à procura de um multibanco. O Gustavo ralhou comigo para eu ir para o passeio. O Zé acha graça, diz que gosta muito quando ele me chama a atenção. Eu já não acho tanta graça. Mas o miúdo até tem graça. Quando chegámos a casa adormeci o Gustavo. Não tenho de fazer muito, basta estar ao lado dele com o cabelo solto. Depois adormeci a Francisca. Ela é mais complicada. Tem de chorar sempre. O Zé saiu. Eu fui ler Uma Rapariga é uma Coisa Inacabada. Avancei imenso. Li capítulos bastante complicados, fiquei com o estômago embrulhado. Deitei-me vinte minutos ao pé de cada um. O Zé chegou. Mandei mensagem ao Miguel a dizer que já sabia quem era o pai do Jon Snow, ele disse que toda a gente já sabe. O Gustavo foi roubar iogurtes ao frigorífico. Lanchámos. Ensinei-o a molhar a bolacha no café de cereais. Ele deixa a bolacha ficar muito tempo no café, a bolacha desfaz-se. Ele não gosta do sabor. Faz cara feia. Vesti o equipamento. Não trouxe os ténis de desporto, deixei-os em Alenquer. Calcei outros. A Daniela mandou-me mensagem. A Marta mandou-me outra futilidade que me fez rir sobre uma blogger. Uma prima pediu-me ajuda, mas longe é impossível ajudar em relação àquilo que ela pediu. Saí com o Gustavo. Ele dá um ótimo companheiro de desporto. Levámos a bola. Fomos correr na calçada enquanto passámos a bola um ao outro. Também mandámos a bola à parede. No final da avenida fomos para a praia fazer exercícios. Ele imitou-me em tudo. Ri muito. As pessoas que passavam também. Depois jogámos à bola na areia. Ensinei-o a fazer cambalhotas. Ele só sabe fazer com ajuda. Eu fiz cambalhotas e fiz a roda na areia. Ele quis tentar. Filmei-o a fazer cambalhotas para mostrar ao Zé. Foi muito divertido. Voltámos para casa a correr. Ele não queria voltar para casa. Viu gatos no caminho e disse, adeus gatos. Tínhamos a cabeça cheia de areia. Fomos para o banho. Mostrei o vídeo ao Zé. Recebi um elogio no Twitter. Recebi outro no Snapchat. Tratámos deles e voltámos a sair. Todos. Fomos à procura de um sítio para jantar e ver a selecção. Encontrámos um que dizia "uma imperial por cada golo da selecção". Pedimos a comida, a Francisca adormeceu. Mas acordou ao fim de dez minutos de jogo. Quando gritaram golo ela assustou-se e gritou muito. Demorou a acalmar-se. O Gustavo ao descer da cadeira bateu com a cabeça na mesa. Começou a chorar. O Zé lentamente foi socorrer o Gustavo. Eu pedi para irmos embora no intervalo. Ele concordou. E fomos. Vimos o resto do jogo. A Francisca adormeceu ao meu colo depois de uma choradeira imensa. O Gustavo tossiu, ela assustou- se e acordou. Tenho os filhos mais corajosos. Não têm medo de nada. Só que não. Demorei outra vez a adormece-la. Acho que foi desta. Não sei, já nem digo nada. O Gustavo continua a fazer-me nós no cabelo e parece que não tem sono. Eu estou toda partida por causa da corrida e exercícios desta tarde. Mas gosto de escrever isto, e de receber comentários. Gosto de reler isto. Gosto de saber que os meus filhos têm registo das primeiras férias juntos. Posso ter muitos defeitos, mas sou uma mãe porreira. E não ando a comprimidos. É tudo natural. Se é que me entendem.

Tudo trocado | 3º dia

Hoje estava difícil para vir aqui escrever o diário. Eles não queriam dormir por nada deste mundo. Tivemos uma tarde excelente, então não podemos ter tudo. De manhã fiquei a saber que o Zé teve uma noite péssima com a Francisca. Calha a todos. Eu dormi lindamente. Então, acordei bem disposta e fui preparar o pequeno almoço. Meti o filme do Tom e Jerry para o Gustavo ver enquanto comia os ovos mexidos. Ele riu-se algumas vezes. Eu gostava muito do Tom e Jerry quando era miúda. Fico contente que ele também goste. Depois saímos em busca de uma farmácia à procura do leite da Francisca. Primeiro fomos ao supermercado, eu fiquei no carro porque ela estava a dormir. O Zé foi com o Gustavo. Quando ela acordou, dois minutos depois, fui ao café do supermercado beber café. Ouvi um choro e reconheci logo, era o Gustavo. Queimei a língua a beber o café à pressa e fui ver o que se passava. O Gustavo no chão a chorar, a empregada a limpar os ovos desfeitos no chão, o Zé com uma cara aflita a tentar ajudar a empregada. Eu pedi-lhe para parar de chorar e resultou. Entretanto, fomos à farmácia e não havia o leite dela, então trouxemos outro. Perguntei ao Zé se lhe dava ali o leite ou se esperava por dar em casa. Ele disse para eu esperar. Então viemos com a miúda ao berros. Mas não era fome porque assim que saiu do carro calou-se. Eu acho que ela enjoa ou algo do género. Nem sei se isso é possível, mas não se cala em nenhuma viagem ( só se estiver a dormir) e ainda vomita no fim. O Zé foi tratar do almoço e eu fui tratar do almoço dela. E foi uma confusão outra vez. As sopas estavam trocadas. A sopa dela continuava dentro da bimby desde a noite anterior, a minha sopa estava nos frascos da sopa dela. Adivinham quem é o culpado? Eu não sou de certeza. Mas não valia a pena continuarmos a ver quem tinha razão. A fome apertava, só isso interessava. Ele foi grelhar o peixe e demorou imenso. Achei super estranho e não achei. Primeiro porque ele demora sempre imenso a fazer seja o que for, mas estava a demorar mais do que normalmente demora. Comecei a ouvir uns gritos, tinha ficado na rua e a campainha não funcionava. Estava farto de me chamar. Depois do almoço, fui beber café com o Gustavo enquanto o Zé ficou com a Francisca. No café, perguntei se ele queria um gelado e ele não quis. Perguntei três vezes, ele rejeitou sempre. A dona do café achou engraçado porque os miúdos nunca negam os gelados. Ele não está habituado a comer doces, por isso eu acho normal. E fiquei contente porque ele não quis. Só insisti porque tinha uma nota alta e estava com pena de pagar cinquenta cêntimos. Jogámos imenso à bola e fomos para as dunas brincar. O Zé ligou-me a dizer que a miúda estava a berrar. A minha irmã ligou-me a dizer que fazia vento em Alenquer. Voltamos para casa, mas saímos logo porque quisemos ir aproveitar o bom tempo para a praia. E aproveitamos tão bem. Foi uma tarde excelente. A Francisca dormiu uma sesta maravilhosa debaixo do chapéu. O Gustavo esteve a brincar com o pai. Eu estive a ler. Terminei o romance do Vargas Llosa. Não gostei nada. Comecei a ler Uma Rapariga é uma coisa Inacabada. Que livro tão confuso no início. Li um excerto para o Zé e ele também concordou. Agora já estou a gostar mais. Mas não era bem um livro tão triste que me apetecia nestas férias. Quando ela acordou, fomos para casa. Deixámos lá o corta-vento e o chapéu. O Zé ia buscar mais tarde. Quando foi buscar já não estava lá a bola do Gustavo. Roubam tudo. O Gustavo tem azar e o gás acaba quase sempre quando ele está cheio de espuma. Aconteceu outra vez. O Zé foi a casa da senhora que a senhora de ontem indicou. Afinal não vendiam ali. Tanta explicação não sei para quê. Teve de vir buscar as chaves do carro e ir comprar uma botija algures. Embrulhei o Gustavo numa toalha e meti-o sentado à frente da irmã. Ele abria a toalha e dizia, olha aqui mana. Estava a mostrar-lhe que estava todo nu. Ela ria-se porque se ri de tudo. Entretanto lá conseguimos dar os banhos e rir um bocado da situação. O Gustavo acabou por adormecer super cansado. Ela acabou por dar cabo de nós até agora. Não queria dormir. Quando passámos o Gustavo do sofá para a cama, ele acordou e fez companhia à irmã até agora. O Zé tinha os olhos vermelhos, coitado. Eu recebi uma mensagem a perguntarem-me que carro tinha comprado. Acho graça. Mas nem tem graça nenhuma. Também me perguntaram se eu já tive momentos a sós com o Zé. Então esta ainda tem mais graça. Experimentem ter dois filhos, só conseguem estar com o vosso companheiro na casa de banho dois minutos se decidirem brincar às escondidas. Ok, é possível, mas é preciso muito red bull, saber fingir de vivo e horas marcadas. Eu perguntei ao Zé se ele queria fingir que era meu namorado há uma semana. Ele disse que era complicado fazer uma coisa dessas porque já são sete anos. Ainda me leva a sério. Eu fui ver um filme chamado Pais e Filhas e chorei. E depois fui ver fotos das férias do ano passado. Vi a minha barriga de grávida e não senti saudades. Vi vídeos do Gustavo a dar festas a gatinhos e senti saudades. Entretanto, toda a gente adormeceu e eu vim escrever isto. 

 

(fiquei toda contente porque até da Tailândia leram o texto de ontem e ainda recebi um comentário todo catita. hoje não li o texto ao Zé porque ele revirava os olhos sempre que eu ia à sala interromper o seu descanso com uma porcaria estúpida qualquer, vou dar-lhe um tempo para ele sentir saudades e pedir-me encarecidamente para ler-lhe isto. ele ficou outra vez com a Francisca, acho que percebeu que eu fiquei os outros dias desde que ela nasceu. muito bem.)

 

(hoje meti quatro fotos das férias no instagram e a minha cara foi a que recebeu menos gostos.)

 

(ainda não conduzi o carro novo, acho que vai ser amanhã. é uma carrinha, não sei se sei calcular o tamanho daquilo, estou com medo.)

Banho escaldante | 2º dia

Eu e o Gustavo fomos os primeiros a acordar. Ele disse-me "bom dia mãe" e fomos fazer o pequeno-almoço. Fiz-lhe ovos mexidos, iogurte, banana e um pão de leite. Fiz ovos mexidos para mim e ele quis os meus também. É sempre assim, quer sempre aquilo que eu como. Mas ninguém pode mexer na comida dele. Também não gosto nada. Entretanto, o Zé e a Francisca acordaram. Depois de estarmos todos preparados fomos até ao mercado. A ideia era comprar peixe, mas por causa do mar agitado, os barcos não têm ido buscar peixe. Quando saem, eles costumam vender peixe no mar. Uma pena. Pelos vistos só podemos comprar peixe no supermercado ou no mercado da Vieira. Comprámos pão. Não entendo, não comemos pão quando estamos em Alenquer, mas estamos a comer pão agora que estamos de férias. Eu evito. Só comi um bocado. O Zé já comeu imenso, mas disse-me que em Alenquer não vai comer. Deve ser verdade. Depois fomos buscar os chapéus e o corta-vento. Mas desistimos de ir à praia por causa da ventania. No entanto, no final do passeio arrisquei ir para a praia um bocado antes de almoço. A Francisca gostou. O Gustavo também. Estava todo contente a brincar com a areia, o balde e a pá. Quando regressámos a casa, embalada pelo som do mar, a Francisca adormeceu. Eu aproveitei para ler o Cinco Esquinas, do Vargas Llosa enquanto empurrava o carrinho. O Zé disse que me fazia mal ler em andamento. Faz-me mal é não ler nada. E consegui, sem problemas nenhuns. Ele ia jogando à bola com o Gu, ia lendo enquanto empurrava o carrinho. Depois de almoço, da sesta dos miúdos e do Zé (onde aproveitei para ler metade do romance do Vargas Llosa), fomos para a praia fluvial de Vieira de Leiria. Assim que saímos de casa encontrámos a dona da casa e a sua boca tagarela. Era a miúda a chorar, era a mulher a falar. Era a miúda a berrar, eu acenar a dizer que sim, que sim, e a mulher continuava a falar. A miúda berrava mais alto e a mulher falava mais alto. A minha cabeça acabou por meter o som em modo off e surgiu um sorriso no meu rosto tipo já não sei mais o que fazer, ao menos sou simpática. A mulher explicou umas vinte vezes onde podíamos ir buscar o gás.  Quando a boca da mulher desapareceu, seguimos viagem. Fui comprar um carregador para o meu iPhone. Tive a triste ideia de levar o Gustavo comigo. Isto porque ele fez aqueles olhinhos fofinhos do Gato das Botas enquanto segurava um camião enorme. Comprei. Quando chegámos à praia, parecíamos os ciganos com tanta tralha atrás. Acho que temos de comprar um carrinho só para levar tralha, ou como antigamente, adquirir um burro. A praia estava muito boa. A água quente. Não era xixi. Andei a passear com a Francisca, tirei umas fotos para recordar, molhámos todos os pezinhos.  Foi tão bom. E regressar com aquela tralha toda outra vez para o carro? Foi tão mau. O Zé primeiro levou o carrinho com a Francisca. Eu levei as duas malas e o Gustavo ao colo. O Zé voltou a ir buscar os brinquedos todos, as toalhas, o corta-vento. O Gustavo decidiu voltar para trás sozinho, depois de eu ter chegado com ele ao carrinho da Francisca, quase morta de cansaço. A Francisca voltou a chorar porque odeia andar de carro e de estar no ovo. Odeia mesmo, não me digam que é uma fase. Não é nenhuma fase. É só para me lixar a cabeça. O Gustavo senta-se na cadeira do carro, mas tem sempre de trazer os brinquedos no colo. No caminho ele disse, "oh mana, não chores". Diz para ela não chorar, mas ele passa a vida a querer chorar sempre que algo não é como ele quer. Ainda não tenho cabelos brancos, acho impressionante. Chegámos a casa, fomos todos para o banho. Digamos que fui testar a água quente para irmos (ou não) comprar outra botija. Queimei a cabeça, a água quente é mesmo quente. Quase que abri a torneira de água fria toda. Ao menos não fomos buscar uma botija. O Gustavo despiu-se sozinho, enquanto fui buscar uma toalha, ele encheu as mãos de champô. As mãos e o chão. Respirar fundo. Enquanto fazia o jantar retribui a chamada da Marta. Ela queria contar-me que viu uma blogger super conhecida na loja da Adidas que é a coisa mais esquisita de magra e sem jeito nenhum apesar de gira. Depois viu outras bloggers que parecem mais giras nas fotos do que pessoalmente. Eu sei que foi uma chamada um bocado fútil, mas a futilidade também faz parte. Prefiro que me liguem a contar estas parvoíces do que se metam a dizer-me que morreu este ou aquele. Ah, o Miguel e a Daniela, leram o meu texto anterior e mandaram-me mensagem. Um disse que gostava que eu escrevesse um livro. O outro disse que gostou muito do texto. Um livro? Eu tenho juízo. Enquanto fazia a sopa, o Gustavo apareceu com o meu portátil na mão e deixou o portátil cair mesmo à minha frente. Eu gritei como se o mundo estivesse a acabar e dei-lhe uma palmada. Ele gritou como se o mundo estivesse a acabar. O Zé apareceu a perguntar o que se passava. Depois explicou-lhe que ele não podia mexer no portátil. Ele gritou como se o mundo estivesse a acabar. Eu só pensava na sorte das pessoas que não estão de férias no andar de cima. Acho que só estão pessoas no quarto andar. Sorte a deles. O portátil liga, caso contrário não estava a escrever este texto. O jantar correu bem. Falámos no facto de outros pais irem de férias uma semana e não levarem os filhos. Eu acho que eles têm muita sorte. Uma pessoa minha amiga pediu-me um livro emprestado para ler quando for de férias sem a filha. Eu acho graça, porque eu tenho dois e consigo ler. O Zé diz que eu consigo tudo. Eu fico toda inchada e esqueço-me do dinheiro que ficou em Alenquer. Pelo menos mais umas horas. Ou até voltar a passar o cartão. Vim outra vez para o quarto ver o décimo episódio da Guerra dos Tronos com o Gustavo. Ele adormeceu logo enquanto me mexia no cabelo. Tique que dura há dois anos. Eu entrei em histerismo com o episodio. Até parei a meio só para demorar mais a terminar. O final é perfeito, maravilhoso, lindo. O Zé veio ao quarto dizer-me que amanha ia fazer um papagaio para o Gustavo e que precisava de corda. Eu disse-lhe que o final da Guerra dos Tronos era lindo e que o Gustavo ia adorar o papagaio. Agora vou ler mais um bocado porque perdi o sono com o episodio, estou mesmo eufórica.

 

(fiquei parva porque três pessoas colocaram isto nos favoritos, e duas pessoas amigas mandaram-me sms, logo cinco pessoas leram o texto anterior. ah, também li o texto anterior ao Zé só para ele saber que pensei em divórcio e mudar um bocado de atitude comigo. talvez tenha mudado porque ele ofereceu-se para dormir com a Francisca outra vez.)

As nossas férias | 1º dia

Fomos buscar o carro novo, metemos tudo na mala e seguimos viagem até Pedrogão. Uma viagem de uma hora transformou-se numa viagem de três horas com tantas paragens. A Francisca não gosta de estar no ovo muito tempo, chora imenso. Foi complicado dar biberão, arrotar e trocar a fralda dentro do carro. Não dava para sair devido ao calor. O Gustavo pediu água e para ver os bonecos. Nada de mais. Quando parámos perto da Marinha Grande deu para esticar as pernas e jogarmos um bocadinho à bola. Impressionante como a Francisca se cala de imediato. Depois só voltámos a parar em Pedrogão. Encontrámos a senhora de camisola verde e avental que nos recebeu de uma forma calorosa. Quis pegar a Francisca ao colo enquanto tirámos tudo do carro e nos instalámos. Contou-nos um bocadinho da sua história, dos problemas que tem nos ossos, nos anos em que imigrou em França, como construiu estas casas, nos netinhos que criou, nos filhos que preferem o Algarve. Esta senhora, como diz o Zé, deve ter estado presa durante anos e agora voltou a ver pessoas tal é a necessidade de falar. Não me importo, adoro ouvir histórias. Também pensei cá para comigo, queria tanto que os meus filhos tivessem uma avó assim. Nota-se que adora criança e até queria ficar com a Francisca para irmos às compras. Uma querida. A casa é porreira, tem dois quartos, uma cozinha equipada, e está a dois passos da praia. O tempo está bom, não fosse o vento, estaria perfeito. Depois de instalados, fomos ao supermercado. Só nesse momento é que o Zé contou que deixou o dinheiro em Alenquer. Contou mesmo na hora exacta para eu ficar chateada e começar logo a fazer contas de cabeça. E se eu não tivesse trazido dinheiro? E se tivesse a contar com ele? Felizmente sou uma mulher independente, mesmo com marido, prefiro pensar e contar comigo. Os quinze dias estão salvos. Entretanto, recebi um telefonema. Queriam saber se eu tinha comprado carro ou se tinha trazido um emprestado. Eu comprei. Chamaram-me cabra porque não contei antes. Eu não contei porque não quis contar. E pela primeira vez, quando não contei a ninguém, algo aconteceu na minha vida. Nem ligo muito a estas coisas, mas parece que resulta. E se olhar à minha volta, as outras pessoas são assim, só me contam depois. Eu é que sou de contar tudo antes. Mas acho que aprendi. A minha amiga perguntou-se se eu achava que ela me passava más energias, eu disse que não. Não penso. Mas ela também comprou carro e nunca me contou. Também não sou vingativa, mas acho engraçado exigirem uma coisa que depois não retribuem. No supermercado fiquei de burro preso, amuada. O facto do Zé se ter esquecido do dinheiro irritou-me. Até pensei em divorcio. Juro. Por uma ninharia, perguntam? Não, são várias coisas acumuladas. Eu também perdi a paciência. E a tolerância. Ele perguntou-se se queria que voltassem para ir buscar o dinheiro. Adoro chantagens emocionais. Obvio que não queria. Já em casa, ele foi grelhar a carne e eu fiquei com os miudos em casa. Há um quintal com churrasqueira nas traseiras da casa. Bem porreiro. Jantámos, eu quase que não comi nada porque não gosto de carne e porque não gosto que o Zé só me contes as coisas mesmo em cima da hora. As férias podiam ter começado melhor. Depois de jantar, levei o Gustavo a ver o mar. Estivemos sentados na areia. Ele viu uma gaivota e disse: vou-te apanhar. E riu-se. Agarrou num punhado de areia e atirou ao ar. Ficou com a cabeça cheia de areia. Eu não me importei. Nada. Nada. Nada. Os problemas graves são outros. Areia na cabeça é só areia na cabeça. Ele viu um homem ao longe e disse que era o pai. Mas não era. O pai estava em casa com a Francisca. Lavou a loiça e sentou-se no sofá. As camas por fazer. Eu não me importei. Voltámos para casa, demos banhos. Eu dei à Francisa, ele ao Gustavo. Pijamas. Eu fui para o quarto com o Gustavo ver o nono episódio da Guerra dos Tronos. Mas antes liguei ao Miguel. Ele estava a ver o décimo episódio. Contou-me algumas coisas. Não me importo com spoilers. Só não quero morrer de curiosidade. Adorei o nono episódio, adorei o sorriso da Sansa, adorei a batalha dos bastardos. Guardei o décimo episódio para hoje. Recebi uma mensagem do Miguel a dizer que fazia bem e fazia mal em guardar. Fiquei sem bateria. Ele esqueceu-se do dinheiro, eu esqueci-me do carregador. Tenho de ir comprar um à Praia da Vieira daqui a pouco. Li umas páginas do livro chamado O Livro, do Zoran. Era a única acordada, fui desligar a tv, agarrei em dois cobertores e fui dormir para a cama com o Gustavo. Já tinha saudades de dormir com ele. 

 

(não fiz edição de texto, escrevi conforme as palavras sairam da minha cabeça, é só para servir de registo, presumo que ninguém vá ler isto)

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