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A Mulher Certa

claudiaoliveira23[gmail]com

A Mulher Certa

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Sobre o Hospital Santa Maria

Eu nasci no Hospital de Vila Franca de Xira. Há 29 anos anos presumo que o hospital seria tudo menos moderno. Actualmente o hospital é moderno, um quarto para cada mãe, com casa de banho privada. Um mimo. O pai pode passar a noite no quarto. Porém, continuo a ouvir várias queixas sobre o funcionamento  do mesmo. Mudam a casa, continuam os móveis. Se é que me faço entender. Claro, que existem excepções e diversas pessoas sem queixas. Como ouvi tanta coisa, o Hospital de Vila Franca de Xira seria a minha segunda opção para o parto. A primeira era o Hospital de Santa Maria. 

 

Não faço ideia dos motivos da minha escolha. Talvez tenha sido o meu instinto, sexto sentido, chamem o que quiserem. Quando tenho um pequeno alarme dentro de mim a puxar-me para um lado, é por aí que vou. Algo me dizia: Hospital Santa Maria. Também optei ser seguida no privado, tenho seguro de saúde e nunca gostei dos centros de saúde. As minhas experiências nunca foram as melhores. Horas intermináveis à espera, hoje um médico, amanha outro. "A sua médica de família está doente", "A sua médica de família está de baixa", "Tem de tentar um médico de recurso". Como é que uma pessoa se sente ao ouvir estas frases? Pois. 

 

Quando o teste deu positivo, marquei consulta na CUF de Torres e fui a uma primeira consulta. Gostei dos serviços mas (quando existe um "mas" as minhas escolhas mudam) o caminho da minha casa à CUF era longo e a médica era pouco faladora (mal abriu a boca, apesar de ter um ar simpático). Depois de alguma pesquisa, marquei consulta no Consultório Amaral com o Dr. Nuno Clode. Gostei logo dele. E não houve um "mas". Sendo ele um médico ligado à Maternus e ao Hospital de Santa Maria senti o meu coração sossegado. 

 

Quando o médico me questionou, "onde quer fazer o parto?" a minha resposta foi prontamente "Hospital de Santa Maria". Sem conhecer os serviços. Felizmente que assim foi. Adorei! Eu, Cláudia Maria, detesto hospitais e tudo o que esteja ligado a hospitais. Sou do tipo maricas, só vou se me amarrarem ou estiver desmaiada. Chego ao cúmulo de ficar boa só para não ir ao hospital. Com a gravidez, é impossível ficar longe dos hospitais. Posto isto, em Santa Maria senti-me em casa. Completamente à vontade. Segura. Desde que entrei. Fui tão bem tratada que parece impossível. Na hora de dizer adeus tive vontade de abraçar todas as pessoas que cuidaram de mim com um sorriso. Actualmente, é difícil encontrar alguém satisfeito com a vida. Ali ninguém parecia infeliz ou a fazer fretes. Sério. Incansáveis. 

 

Só tenho coisas boas a dizer sobre o Hospital de Santa Maria. Consequentemente a minha esperança sobre os serviços públicos melhorou, assim como a minha fé sobre as pessoas. Há coisas fantásticas, não há?

O (meu) pós-parto

Depois do maravilhoso, calmo e intenso parto veio o pós-parto. No meu caso, complicado. 

 

Perdi muito sangue durante o parto. Ao contrário das outras mulheres, não consegui levantar-me após seis horas. Quando a enfermeira chegou para me ajudar percebeu que eu estava bastante fraca. Quando meti os pés no chão ia caindo para o lado. Voltei para a cama, esperei o jantar. Alimentei-me o máximo que consegui. Trouxeram o Gustavo para perto de mim para lhe dar de mamar. Ao longo da noite, comecei a sentir-me fraca e com dores de cabeça. No dia seguinte parecia que estava pior mas tentei fazer-me de forte e não me queixar. Recebi algumas visitas, quando estas foram embora acabei por esgotar as forças. Não tinha forças para falar, ouvir pessoas, abrir os olhos, as dores de cabeça aumentaram. Queixei-me, fizeram-me análises, verificaram que os meus valores estavam muitos baixos. Pediram sangue para fazer-me transfusão de sangue. Fizeram duas. Fui vista por duas equipas, super atenciosos. Eu não reagia. Pensaram que podia estar com uma hemorragia interna, felizmente não. O sangue não chegava. Eu a pior. Sei que o meu marido aprendeu a dar banho, vestiu o Gustavo, deu-lhe biberon mas só tenho vagas lembranças. O sangue acabou por chegar mas nem me lembro. Tanta coisa que não me lembro. Dormi a noite inteira com uma agulha espetada no braça. No dia seguinte, acordei melhor. Abanei a cabeça, "deixa lá ver se dói". A auxiliar ajudou-me a levantar, "vá, isto já está bom". Consegui ir à casa de banho, tomar banho, beca beca essas coisas. Comi e pedi para chamar o Gustavo. Dei-lhe de mamar, já estava tão bem que quis aproveitar o tempo perdido. Mudei-lhe a fralda, brinquei com ele, embalei-o, aprendi a dar banho. Ele foi visto pelo pediatra. Tudo bem com o pequeno. Até que chegou outra mãe para o meu quarto (estava sozinha entretanto para não ouvir barulhos e tal). A bebé dessa mãe veio a chorar e não se calou o dia inteiro. Sério. Dores de barriga que aquela criança tinha. Metia dó. Consequentemente as minhas dores de cabeça apareceram e eu voltei a ficar pior. Novamente uma recaída. O Gustavo teve de ser levado novamente para o berçário. Voltei a perder as forças. A minha vontade de pegar no Gustavo e desatar a correr até a casa era maior do que tudo na vida.

 

Só rezava ir para casa no dia seguinte (domingo). E não receber visitas. E assim foi. Felizmente melhorei na manhã de domingo. Comecei logo a preparar tudo para deixar o hospital. O Gustavo foi observado. Eu fui observada. Os valores estavam melhores, contudo ainda abaixo dos valores normais. Eu pedi muito para ter alta. Eu esforcei-me imenso para mostrar que estava bem só para ir para casa. Fui tratada por pessoas profissionais, cada uma melhor que a outra. Só pessoas nobres e boas. Não tenho uma única razão de queixa. Quando voltar a ter um filho ,será no Hospital de Santa Maria. Deram-me imensos conselhos, ensinaram-me imenso. Guardo aquele hospital no coração. Aprendi muito. Nunca tive vergonha de questionar as enfermeira e as outras mães (de dois ou mais filhos). Elas admiravam-se, ainda recebi um grande elogio "é o seu único filho? não parece, está tão à vontade". E estava, nada me assustou. 

 

Quando o marido chegou com a minha mãe e a minha irmã para me levar dali para fora, só me apeteceu pegar nas enfermeiras e dar uns passos de dança. Nem acreditava. Ia para casa. A nossa casa. Longe daquele bebé cheio de dores. Longe daqueles focos de luz dolorosos para a vista. Longe daquelas agulhas.

 

Quando vi a luz da rua pensava que estava a sonhar, só acreditei quando entrei na minha casa agarrada ao meu filho. Ainda não estou completamente bem, mas aos poucos vou ficar. É uma pena querer ter forças e não conseguir estar a cem por cento. É uma pena ter de deixar de lado metade do que sou (aquela metade que quer tudo do seu jeito, à sua maneira e pelo seu próprio braço). É pena as hormonas estarem alteradas e não querer ver (quase) ninguém.

 

Tudo vai ficar bem. Daqui a uns dias não vai passar de uma lembrança. 

O dia mais feliz da minha vida - parto do Gustavo

ao colo do pai

 

Passei o dia 19 de Fevereiro com dores ao longo do dia. No final da noite, arrastei-me enquanto fazia o jantar. O marido decidiu montar a cama e pendurar os quadros no quarto. Pediu-me várias vezes ajuda, repetia-lhe: "hoje não estou a conseguir fazer nada". Já tinha metido na cabeça que o parto só seria na segunda-feira (ou seja, ontem dia 25) conforme combinado com o médico. Fui dormir tarde, às quatro da manhã continuava sem dormir e com dores. Chamei o marido para o pé de mim mas nem assim.

 

Às sete da manhã, senti a primeira contracção mas nem identifiquei como tal. Deitei-me. Outra contracção. O meu pensamento "queéissto?". Levantei-me, corri para a casa de banho e nada. Deitei-me. Fui ver as horas. E esperei pela próxima. Queria saber se ocorriam de cinco em cinco minutos. Confirmei. Ok, devia ser aquilo. Até que acabei por perder líquidos sem conseguir evitar. "Mijei-me", gritei. O marido acordou com a minha agitação. Disse-lhe, "não sei se é isto, mas presumo que seja, vou esperar mais um pouco". Ele preparou-se na sua forma mais lenta (acho que não acreditou de imediato que tinha chegado o dia) enquanto eu decidia se íamos ou não para o hospital. Liguei à minha mãe e expliquei-lhe. "Tenho uma dor assim e assado mas não sei se é isto". Ela não foi muito esclarecedora. Aliás, nada. Até que a dor passou a ser mais longa e com menos intervalo. Aceitei que tinha chegado a hora. Avisei o meu médico via sms e vai de arranjar tudo para ir para o hospital. 

 

Só saí de casa às 9 horas. O marido andava na rua a meter gasóleo, trocar de carro, beca beca já me estava a irritar. Toda eu já fazia respiração para controlar a dor. A minha mãe veio ter comigo a casa. Metemos tudo no carro, saltei para o banco de trás e só pedi ao senhor dos partos, "por favor, faz com que o meu marido não se engane no caminho". O caminho levou uma eternidade na minha cabeça. Apanhámos transito lento, fila para entrar para o hospital. As pessoas olhavam para mim e pensavam, "coitadinha". Estacionamos em frente à urgência de obstetrícia do Hospital de Santa Maria. Dirigi-me ao atendimento, "estou em trabalho de parto, o meu médico é o Dr. Nuno Clode". Preenchimento da papelada em velocidade devagar devagarinho beca beca aquela mulher estava a tentar enervar-me. Acreditam que a minha mãe não se lembrava da minha data de nascimento? Acreditam que a minha carteira abriu-se e caíram todos os documentos no chão? Mandaram-me entrar, uma médica veio logo ter comigo: "é a Cláudia? venha comigo". 

 

Ao examinarem-me detectaram que já tinha três dedos de dilatação. "Vamos já preparar a equipa... aguarde um pouco neste corredor". Caminhada para aqui, caminhada acolá, contracção aqui, contracção acolá. Cheguei a simular uns toques à maestro perante uma orquestra. Ainda ri. Estava bastante calma. Subi, deram-me uma roupa para vestir e meteram-me numa cama. Uma equipa de estagiários acompanhada por uma médica voltou a examinar-me. Estava a evoluir bem. Naturalmente a bolsa rebentou como um pequeno pacote de batatas.

 

A anestesista chegou, preparou a epidural com muito cuidado. Não doeu nadinha. Assim que aplicada senti um enorme alivio. Explicaram-me que ia durar duas horas para passar o efeito, assim que sentisse uma contracção para avisar para me darem outra dose. Lá esperei. O marido esteve comigo, falámos à parva, ainda rimos. Outra dose. Lá iam verificando se estava a fazer a dilatação. Carradas de médicos e enfermeiras. Foi rápido. Às três da tarde, fui para a sala de partos. Mandaram entrar o marido, ele sentou-se ao meu lado. Fizemos umas apostas sobre a hora de nascimento. Ele apostou que ia ser às 17h, eu apostei que ia ser às 16:40. Esperei pelos médicos enquanto fazia a respiração para ajudar nas dores. A dilatação estava feita, só faltava a tal "vontade para fazer cocó". Ia fazendo força para ajudar mas não sentia vontade, só as dores das contracções. Entretanto chega a equipa que ia fazer o parto e começam a examinar-me outra vez. A médica e o médico começam a discutir sobre a posição da cara do meu bebé. Mandaram-me fazer força mas nada. Não havia meio de sair. Desistiram, pediram para o meu marido sair porque iam tirar com fórceps (chamados ferros). Continuei calma, em poucos minutos o Gustavo saiu. Eram 16:45. Vi as pernas, a médica disse "ele já estava a chorar antes de sair, tem aqui um belo rapaz". Meteram-no no meu peito, eu olhei para ele e só disse "que fofinho" enquanto lhe dei umas festas no rosto. Levaram-no, fiquei a ser cosida. Farta de estar ali pedi para se despacharem e me darem um copo de agua. Não deram, disseram que não podia. Comecei a ficar mal disposta e a ver tudo turvo. Lá os convenci a darem-me uma gaze embebida em água e consegui recuperar minutos mais tarde da má disposição. Pronto. Fui levada para outro lugar enquanto esperei pelo Gustavo e pelo marido. Dei-lhe mama, foi nesse preciso momento que me emocionei e percebi: "sou mãe, este é o meu filho". E só não inundei aquele hospital de lágrimas de felicidade porque não me deram o tal copo de agua e estava desidratada. 

 

Nasceu o meu filho

Chama-se Gustavo. Tem 3,225, mede 48 cm, está bem. Correu tudo bem, o pessoal do hospital é impecável. Adoro este pequeno menino, é gratificante ser mãe. A maior felicidade que senti na minha vida. Para já, é isto. Obrigada pelas mensagens, conselhos e dicas. Foram todas muito importantes para fazer deste momento algo ainda mais bonito, calmo e memorável.

Relax

Esqueci-me do telemóvel desligado, foi a confusão, o drama, o horror. Gente, se eu entrar em trabalho de parto não me atiro para o chão. Uma pessoa tem forças para ligar o telemóvel e avisar,ok? Muita calma nesta hora. Eu sou a grávida e vocês é que andam malucos?

Mariana, não te estragues

A Mariana Monteiro decidiu enveredar por outros caminhos. Vai apresentar brevemente The Voice, o novo programa de cantorias da RTP. Estou curiosa para saber se é melhor apresentadora do que actriz. Lindona é ela. Simpática e uma fofa também. Gosto sobretudo do estilo e do carisma. Olha, Mariana, não te estragues. 

A carta que João Tordo escreveu ao pai

Eu conheço-o: é um tipo simpático e cheio de humor, que está bem com a vida e que, ontem, partiu com uma mala às costas e uma guitarra na mão, aos 65 anos, cansado deste país onde, mais cedo do que tarde, aqueles que o mandam para Cuba, a Coreia do Norte ou limpar WC's e cozinhas encontrarão, finalmente, a terra prometida: um lugar onde nada restará senão os reality shows da televisão, as telenovelas e a vergonha.

 

excerto da carta.

publicado hoje no Jornal Público. 

 

 

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