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A Mulher Certa

claudiaoliveira23[gmail]com

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Ao fim de 15 anos

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Discuti pela primeira vez com a melhor amiga, a Marta. Ao fim de quinze anos.

 

Conheci-a no sexto ano. E raramente nos largávamos. No intervalo, nas aulas, em minha casa ou na dela. Almoçávamos juntas. Uma faltava, a outra ficava doente. Inseparáveis, tal anel e dedo. Ela chegara do colégio privado, com tiques de menina da cidade. Sempre bem arranjada. Cabelo com vários tons. Pele branquinha e olhos verdes. Eu, menina da terra, com roupa emprestada ou dada. Cabelo escuro, olhos escuros. Ambas magrinhas. Na escola gozavam "vocês são tão magras", "andam à chuva e não se molham". Mais tarde, fomos nós a gozar com a situação, "eram tão jeitosas e agora parecem bisontes, e falavam elas da nossa magreza". Dividíamos tudo. Menos os amores. Isso não. Os nossos gostos em termos masculinos nunca foram os mesmos, felizmente. Íamos a casa na hora do intervalo e toca de trocar de roupa, só para sentir que tínhamos roupa nova. Uma adolescência em comum.

 

 

Mais tarde, surgiram os namoricos mais sérios. Não nos víamos tanto. A primeira aliança, a primeira casa, a primeira mentira, as discussões. O primeiro emprego. Mas não deixámos de ter contacto. Sabiamos da existência uma da outra. Por obra do acaso, voltámos a ser como na escola. Inseparáveis. Tal pulseira no pulso. Estamos juntas oito horas por dia. Fora do emprego, estamos juntas. Saímos juntas. Dividimos tudo. Menos os amores. Isso não.

 

Pela primeira vez, discutimos. A primeira vez é sempre estranha. E foi.  Um discutir rápido. Um acusar de "falta de preocupação". Um "descuido" sem intenção. Nada de zangas como se vê por aí. Não deixei passar para o dia seguinte, tive de resolver tudo na hora. Depois de um dia inteiro sem nos olharmos sequer. Pedi-lhe para vir a minha casa. Quando a vi, simplesmente abracei-a. Sem pedido de justificações. Todos somos humanos, quantas vezes fui eu a errar? Consegui passar por cima do meu orgulho. Da dificuldade de ser compreensiva e pouco durona. Não permiti aos meus olhos deixar de ver a menina de cabelos com vários tons, com tiques da cidade e olhos verdes, naquele rosto. A menina que também não é perfeita. O meu coração sentiu tristeza, mas nunca raiva.

 

Ao fim de 15 anos, discutimos pela primeira vez e percebi que há coisas eternas. Contrariando o lema que me regia.

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